Os Desafios de se Operar Renda Variável no Brasil – Youtrading

Artigos

A Youtrading disponibiliza para você uma série de artigos

Os Desafios de se Operar Renda Variável no Brasil

///
Comentário
/
Categories

Hoje em dia pode não existir mais nenhuma desculpa para não operar nos mercados de renda variável. Os ativos mais líquidos negociados no mundo inteiro estão disponíveis para qualquer trader pessoa física. Essa facilidade do trader operar qualquer ativo, seja câmbio, ações, índices, commodities, ETFs, opções, juros, fez com que o mercado de varejo crescesse exponencialmente nos últimos 4 anos.

A alta demanda por operações especulativas em renda variável também trouxe muita confusão. O crescimento de canais de mídias sociais também pode colaborar com a confusão na cabeça dos especuladores de varejo.

Operar pode não ser uma tarefa simples como é vendido por muitos educadores e analistas de sell-side de corretoras. No Brasil, há um movimento educacional por parte das corretoras, que captam os traders para aumentar suas bases de clientes. Esse movimento é muito importante para fomentar o mercado de varejo, atraindo cada vez mais pessoas para a Bolsa de Valores, que atualmente tem cerca de 700 mil CPFs cadastrados. É um número muito pequeno para um país que acordo com o IBGE tem mais de 208 milhões de pessoas.

Cada pessoa física tem um perfil e as corretoras os segmentam de acordo com o processo que eles chamam de “suitability”. Muitas pessoas físicas desejam fazer investimentos com algum risco, outras preferem os mais seguros. Porém, é possível alavancar os ganhos participando dos mercados operando com risco equilibrado.

É aqui que pode existir uma assimetria: quando um investidor deseja, por conta própria, operar ativos de renda variável no mercado nacional.

Para incentivar esse momento e manter seus clientes engajados, as corretoras no Brasil oferecem salas de call (nos bastidores elas são chamadas por alguns críticos de “salas ATM”, caixa rápido). Os analistas dessas salas, muitos deles com certificações para poderem emitirem análises e trades, passam o pregão com a base de clientes, “operando o mercado”, ou seja, ficam o pregão inteiro passando calls de operações para os clientes, que muitas vezes executam sem saber o que de fato estão fazendo.

É importante ter ciência que analista não é trader. Alguns canais de informação tratam os analistas como “traders”, por exemplo, “os melhores traders do Brasil vão te ensinar […]”. Na verdade, este profissional de mercado, de acordo com as regras da CVM – instrução 483/10 – não pode operar os ativos que ele analisa e passa calls.

 

 

—————————————————————————————————

Instrução da CVM para um analista do mercado brasileiro

“Art. 4º É vedado ao analista de valores mobiliários:

III – negociar, direta ou indiretamente, em nome próprio ou de terceiros, valores mobiliários objeto dos relatórios de análise que elabore ou derivativos lastreados em tais valores mobiliários por um período de 30 (trinta) dias anteriores e 5 (cinco) dias posteriores à divulgação do relatório de análise sobre tal valor mobiliário ou seu emissor; e

IV – negociar, direta ou indiretamente, em nome próprio ou de terceiros, valores mobiliários objeto dos relatórios de análise que elabore ou derivativos lastreados em tais valores mobiliários em sentido contrário ao das recomendações ou conclusões expressas nos relatórios de análise que elaborou por:

  1. a) 6 (seis) meses contados da divulgação de tal relatório; ou
  2. b) até a divulgação de novo relatório sobre o mesmo emissor ou valor mobiliário.”

Essa assimetria (pode ser conflito de interesse) pode confundir muita gente, principalmente aqueles que estão começando a operar no mercado. Há um grande lobby por parte de muitos educadores, visando negativar o acesso aos mercados estrangeiros.

De forma equivocada, o mercado internacional, para muitos é tratado e conhecido como “mercado de forex”. E isso é um grande equívoco. O mercado internacional é gigante, e assim como no Brasil, através de corretoras sérias e de tradição, é possível ter acesso às principais Bolsas e ativos financeiros de todos os mercados.

Para qualquer profissional experiente de mercado, esse acesso facilitado aos mais variados ativos é visto como uma ferramenta operacional, mas para a maioria do varejo não. Muitos começam a aprender apenas um mercado e um estilo operacional, ignorando todas as outras possibilidades.

Atualmente, no Brasil, temos muitas plataformas para acompanhar as cotações e operar os ativos negociados na B3. Elas trazem todo o escopo operacional e de dados, diferentemente do que acontece lá fora, em que o trader pode contratar uma plataforma e encontrar um fornecedor de market data que lhe atenda, aí então fazer o roteamento de suas ordens através da integração com a corretora. Nem todas oferecem este tipo de acesso, mas existe essa possibilidade em diversas corretoras. Aqui no mercado nacional não, tudo é centralizado (dados e roteamento) na corretora ou plataforma.

Hoje os traders que desejam operar derivativos podem conseguir corretagem zero e altíssima alavancagem. Por exemplo, com a partir de R$ 25,00 de garantia na conta (margem), é possível operar 1 contrato futuro míni dólar que protege USD 10.000,00.

É claro que essa alavancagem extraordinária só está disponível para operações de day trade. Sendo assim, se um trader ficar com uma posição aberta até o encerramento do pregão, a corretora vai zerar automaticamente a posição e cobrar a taxa de zeragem, que é alta.

As corretoras trabalham com um sistema de risco para monitorar as ações de seus clientes. Este sistema fica entre o cliente e corretora, ou seja, a ordem passa por ali antes de ir para sistema da B3 (PUMA Trading System).

Em alguns casos, algumas corretoras podem atuar como “facilitadora” (client facilitation) do acesso ao mercado, ou seja, ela pode tomar a outra parte da operação, emitindo uma ordem chamada de “direto”. O “direto”, basicamente, é uma ordem casada dentro da instituição. O mesmo participante, por exemplo, corretora X vende à mercado (ordem do cliente) e ela mesma compra passivamente (exposição própria ou casa com ordem de outro cliente).

Esta atuação pode ser classificada como operação de market making, pois as corretoras ganham no spread (diferença entre o melhor preço de venda e compra) que ela consegue fechar, normalmente 1 ou 2 ticks por operação, dependendo das condições de mercado (spread de mercado, liquidez e volatilidade).

(OBS.: Não são todas as corretoras que atuam com este sistema. A B3 exige que se tenha uma estrutura dentro da bolsa, co-location e um software robusto – homologado pela B3-  que passará pelo crivo operacional do sistema de monitoramento de mercado criado e mantido pela NASDAQ chamado SMARTS, e do risco, EntryPoint).

Este assunto não é tratado por ninguém no mercado nacional. Não há informações disponíveis sobre como a corretora faz esse tratamento das ordens. Nos contratos há a descrição das contas operacionais das corretoras, porém, não explica em detalhes como ela vai tratar as ordens dos clientes. É necessário um diálogo aberto com a corretora.

Sempre que a volatilidade aumenta, principalmente no Dólar Futuro e no Índice Futuro, as corretoras podem aumentar a exigência de margem de garantia, as plataformas podem começar a travar (devido ao monopólio do market data) e os sistemas de risco e casamento de ordem das corretoras também podem travar e não passar as ordens dos clientes ao mercado. Fica claro que o acesso à alta alavancagem tem um trade-off implícito e muitos traders pessoa física o desconhecem.

É natural que existam assimetrias em um mundo em que as expectativas e necessidades são divergentes. Em todos as relações, sejam B2C (“negócio para cliente”) ou B2B (“negócio para negócio”), sempre haverá algum desequilíbrio em algum momento. Esse desequilíbrio é conhecido como Risco Operacional. Ele muito importante para especuladores de curto prazo, principalmente para pessoas físicas que não possuem acesso à um ambiente de execução institucional. Infelizmente este risco é sempre ignorado e nunca abordado em qualquer material para pessoa física que busca atuar em ativos alavancados, com operações de day trade.

Para um trader pessoa física de renda variável, esses pontos do artigo devem servir como introdução a um dos riscos do mercado, o Risco Operacional. Não abordamos as particularidades de cada um e nem de cada serviço oferecido aos traders de varejo, mas é importante que estes criem filtros e fiquem cientes do que estão de fato comprando e recebendo. Não só no Brasil, mas também lá fora. Em artigos futuros vamos entender mais sobre os desafios de se operar no Brasil e nos mercados globais.

 

Anderson Alves

Go Day Trading –  https://godaytrading.net

Canal Youtubehttps://www.youtube.com/c/GodaytradingNet